segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Filmes: "Cavalo de Guerra"

DE RÉDEAS PUXADAS

Filme é mais um tiro na água de um cineasta que revolucionou o cinema, mas agora se tornou um reacionário que sente necessidade de emular filmes dos anos 1950 para tentar gerar alguma conexão com sua plateia.

- por André Lux, crítico-spam

O diretor Steven Spielberg parece ter chegado a uma encruzilhada criativa em sua carreira que o deixa impossibilitado de repetir seus sucessos do passado. Do alto de seus sessenta e tantos anos não consegue mais se comunicar com a juventude atual e seus filmes pretensamente “sérios” não recebem o devido respeito que ele gostaria. Nem mesmo os filmes produzidos e apresentados por ele geram mais qualquer impacto ou relevância (vide o fraco “Cowboys do Espaço”).

Assim, nas últimas décadas, o cineasta tem se entregado a projetos que vão do ridículo (“AI: Inteligência Artificial” e “Minority Report”) ao simplesmente desencontrado (“Munique” e “A Guerra dos Mundos”). Seu novo longa, “Cavalo de Guerra”, situa-se na segunda coluna. Terminada a exibição, fica impossível identificar qual era, afinal, a história que Spielberg queria contar. Era a história do cavalo Joey e sua luta pela sobrevivência? Era a história do menino (o fraco Jeremy Irvine) que criou o cavalo? Seria sobre os horrores da I Guerra Mundial, na qual foram massacrados milhões de equinos por causa das novas táticas e armas de guerra que tornaram as lutas de cavalaria obsoletas? Talvez um conto dramático sobre os problemas familiares e como acontecimentos grandiosos podem influenciá-los para o bem ou para o mal?

Impossível de saber. “Cavalo de Guerra” acaba sendo outro filme de Spielberg totalmente esquizofrênico, que não se decide sobre o que se trata e, pior, é ainda embrulhado como se fosse um filme para a família. Só que mais da metade de sua longa metragem se passa dentro dos campos de batalha imundos e tétricos da I Guerra – e a solução encontrada por Spielberg para não “assustar” as famílias foi retirar qualquer traço de sangue das mortes! Genial.

O filme também tem um grande problema que é a fotografia de Januzs Kaminsky, colaborador fiel de Spielberg desde “A Lista de Schindler”. Seu estilo árido, esmaecido e estourado de filmar não casa com o lado “família” da obra e, obviamente, só funciona durante as sequências de guerra. A música de John Williams sofre com toda esse desencontro e, embora tecnicamente perfeita, também não passa qualquer emoção ao ser meticulosamente “segura pelas rédeas” pelo diretor que, mesmo no final, parece não ter decidido se queria fazer um filme “sério” (leia-se: profundo e contido) ou um filme “família” (leia-se: para se emocionar e chorar).

As únicas poucas sequências de “Cavalo de Guerra” que geram algum tipo de emoção acabam sendo justamente as que se concentram em seus protagonistas equinos. Aí Spielberg, absurdamente, imprime sensibilidades humanas ao cavalo “Joey”, já que ele não só é fiel e elegante, como também não mede esforços para se colocar frente ao perigo para salvar seu amigo (um cavalo negro mais velho)!

A tentativa de criar sentimentalismo entre o garoto e sua família também não funciona. Primeiro porque o relacionamento entre eles carece de profundidade e laços verdadeiros. E segundo porque sua mãe é por demais independente para uma mulher do início do século XX e seu pai tem crises existenciais demasidamente conscientes e profundas para um simples fazendeiro alcóolatra.

Spielberg imita a estética de “E O Vento Levou...” para encerrar seu filme, porém não consegue reproduzir nada da emoção e do arrebatamento daquela obra, ficando no ar apenas um gosto de café requentado e aguado demais. No final, “Cavalo de Guerra” é somente mais um tiro na água desse cineasta que, no início de carreira, revolucionou o cinema com suas aventuras e dramas infantis palpitantes, mas que agora se tornou, quem diria, um reacionário que sente necessidade de emular filmes dos anos 1950 para tentar gerar algum tipo de conexão com sua plateia. Chega a ser triste isso.

Cotação: * * 1/2

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